Atrasos sobem com juros e despesas extras

28/04/2005

O volume de cheques devolvidos por falta de fundos bateu recorde em março, informou a Serasa. A cada mil compensados, 20,8 cheques foram devolvidos. O recorde anterior, de 17,6 cheques por mil compensados, ocorreu em maio de 2003. Já a inadimplência nas linhas de crédito pessoal das financeiras também atingiu patamar inédito de 18,5%.

O significativo crescimento do volume de crédito concedido no varejo, que também está em nível jamais constatado na economia brasileira - atingiu R$ 122,9 bilhões em março, o que representa um crescimento de 25% e mensal de 2%, segundo a empresa Partner Consultoria - e o aumento das vendas parceladas favorecem o desequilíbrio financeiro das famílias e, conseqüentemente, o avanço do volume de cheques sem fundos.

As vendas parceladas em três ou quatro vezes sem acréscimo são responsáveis hoje por cerca de metade dos negócios a prazo do varejo, segundo estimativas da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Até dois anos atrás, essa modalidade de pagamento era praticamente insignificante e só oferecida ao consumidor esporadicamente. Esse efeito perverso ocorre, sobretudo, no início do ano por causa de despesas extraordinárias, como IPVA, IPTU, matrículas e materiais escolares. Dessa maneira, as compras parceladas de Natal embolam-se com os vencimentos de início de ano e descontrolam o orçamento.

Ao perder o controle de suas finanças pessoais, as famílias utilizarão saídas como o cheque especial ou crédito rotativo do cartão, que podem facilmente aumentar a desorganização do orçamento. Portanto, é preciso ficar atento à esse comportamento. Especialistas do setor temem até a existência de uma bolha de crédito, que pode estourar nos próximos meses, com a manutenção dos juros altos e aumento do desemprego.

Cadastro positivo - Na tentativa de frear o aumento dos juros cobrados no crédito e evitar maiores problemas, o governo vem atuando em várias frentes, algumas com sucesso extraordinário e efeito imediato sobre o custo do dinheiro, como o crédito com desconto em folha de pagamento. Agora, o governo dá os últimos retoques no projeto de lei que regulamenta o cadastro positivo. A idéia é que o novo sistema permita avaliar o devedor pela boa ficha e não só pelo exame do cadastro negativo.

O governo espera que o novo modelo leve à diminuição da inadimplência e dos juros. Pelo texto atual, a iniciativa privada poderá criar birôs, com informações sobre o comportamento de empresas e consumidores (nível de endividamento, pontualidade no pagamento das prestações e juros pactuados). Com a aprovação do projeto pelo Congresso e a sua transformação em lei, ficará definido juridicamente o papel dos bancos de dados, com a atribuição de responsabilidades na coleta, fornecimento e circulação de informações, até o limite da preservação das garantias individuais.

As medidas que caminharem no sentido da queda dos custos bancários serão bem recebidas. A inadimplência é um dos fatores, ao lado da carga tributária e do lucro dos bancos, para os juros altos. O efeito dessas medidas, porém, deverá ser gradual e de prazo mais longo.

Fonte: TPT Comunicação Ltda.