Selic em queda: onde investir agora para aproveitar o novo ciclo
Escrito por Mariana Silva
AtualizadoA inflação desacelerou mais rápido do que o mercado esperava, e a atividade econômica perdeu força no segundo trimestre de 2026. Isso reabriu o debate sobre onde investir até 2027. Não há consenso sobre o ritmo dos cortes de juros, mas cinco especialistas concordam: o novo cenário muda a conta entre renda fixa e renda variável, com as eleições de outubro e a guerra no Oriente Médio como fatores extras de cautela.
O que o PIB do segundo trimestre mostrou?
O consumo das famílias caiu 0,4% no trimestre, enquanto o PIB cresceu 0,5%, puxado quase todo pela agropecuária (+2,8%); indústria e serviços ficaram estagnados, segundo o IBGE.
Para Igor Nascimento, especialista em investimentos, é "o retrato de uma economia segurada pelo crédito caro". Já a Formação Bruta de Capital Fixo subiu 1,2%, sinal de que parte do setor produtivo já se posiciona para juros mais baixos à frente. Camilo Cavalcanti, gestor da Oby Capital, credita o resultado à política monetária restritiva e ao endividamento elevado: "a principal mensagem do PIB é a desaceleração da economia, com sinais mais claros de que os juros altos estão fazendo seu trabalho."
Por que o mercado ainda diverge sobre a Selic?
O Boletim Focus projeta IPCA de 5,01% em 2026 e Selic de 13,75% no fim do ano, caindo a 12% em 2027. Nascimento cita a deflação de 0,40% no IPCA-15 de agosto como reforço da desaceleração, mesmo com a inflação projetada ainda acima do teto da meta (4,5%). "O Banco Central prefere cortar devagar a ter que voltar atrás", diz. A leitura ganhou força quando a XP revisou sua projeção de Selic para 13,25% ao fim de 2026 (ante 14,00%) e reduziu a estimativa de crescimento do PIB para 2,0%.
Robson Gonçalves, economista da FGV, é mais cauteloso: lembra que o BC olha as projeções para 2027, não a inflação deste ano, e cita o mercado de trabalho aquecido como fator que sustenta a cautela do Copom, projeta Selic estável em 14%. Cláudia Moreno, do C6 Bank, vê espaço para mais cortes, "ainda que sujeito a uma pausa" na virada de 2026 para 2027.
Onde investir com os juros em queda?
Para os especialistas, juros mais baixos favorecem primeiro os ativos mais sensíveis ao ciclo monetário e depois abrem espaço para a bolsa doméstica.
Marcelo Freller, estrategista do C6 Bank, aposta nas ações domésticas cíclicas à frente do prefixado curto: "o que mais vai valorizar são as ações ligadas à economia brasileira", diz, citando o índice de small caps, muito descontado e mais penalizado pelos juros altos. Cavalcanti concorda que papéis atrelados à inflação de curto e médio prazo devem ganhar valor, mas em ritmo mais lento: "pós-fixados passam a render um pouco menos, e títulos indexados à inflação… podem ter um retorno mais positivo."
Ainda assim, pede cautela: pós-fixados atrelados ao CDI rendem menos a cada corte de juros, "quanto maior o CDI, melhor essa classe de ativo vai, e vice-versa", diz Freller. Nascimento lembra que os juros no país seguem muito acima da inflação (perto de 8% ao ano, entre os maiores do mundo), o que ainda justifica manter parte da carteira em renda fixa com atenção redobrada ao crédito privado, onde a corrida por rendimento comprimiu os prêmios, e a ações muito dependentes do consumo. Cláudia Moreno destaca a dívida pública, acima de 80% do PIB, como fonte de risco: "existem dois portos seguros, o ouro e os títulos públicos", diz, defendendo também que a meta de inflação suba de 3% para 4% ao ano.
Como as eleições e a guerra no Oriente Médio entram na conta?
Em agosto, investidores estrangeiros retiraram recursos da bolsa: o Ibovespa caiu 0,33% e o dólar subiu 2,17%. Nascimento pondera que o que move os preços não é quem lidera as pesquisas, mas o que os candidatos sinalizam sobre gastos públicos e dívida. Cavalcanti reforça: a resposta à incerteza eleitoral não é prever o resultado, é diversificar. No front externo, o conflito no Oriente Médio segue como risco para os preços de energia, podendo reacender a inflação de combustíveis. A XP soma outros riscos: um El Niño mais intenso, combustíveis defasados em relação ao preço internacional, e a discussão no Congresso sobre o fim da escala 6×1.
Como cada especialista monta a carteira até 2027?
- Igor Nascimento: renda fixa como base, com papéis indexados à inflação, aumento gradual da bolsa e uma parcela dolarizada como proteção.
- Camilo Cavalcanti: mix de pós-fixados, prefixados e papéis atrelados à inflação de curto e médio prazo, com proteção cambial.
- Marcelo Freller: ações domésticas cíclicas à frente até dos prefixados.
- Cláudia Moreno: postura defensiva, com ouro e títulos públicos ganhando espaço.
- Robson Gonçalves: preferência por ativos sem risco, com cautela quanto ao ritmo de cortes da Selic.
E para quem investe valores menores, o que muda na prática?
Traduzindo as estratégias mais sofisticadas para quem investe todo mês em CDB, Tesouro Direto ou fundos simples:
- Pós-fixados, como CDBs e Tesouro Selic, seguem seguros, mas rendem menos a cada corte, bons para a reserva de emergência, sem esperar o mesmo retorno de antes.
- Prefixados e Tesouro IPCA+ tendem a se valorizar, pois já embutem a queda dos juros: trava uma taxa melhor agora, mas o preço pode oscilar se vendidos antes do vencimento.
- Ações domésticas, principalmente de empresas menores e mais endividadas, são as que mais tendem a subir com a queda dos juros a aposta mais arriscada, indicada para quem já tem reserva formada.
- Diversificar entre essas classes, sem migrar tudo de uma vez para renda variável, é o conselho comum entre os especialistas.
Na prática: manter a reserva de emergência em algo pós-fixado, aproveitar as taxas ainda altas dos títulos atrelados à inflação para o médio prazo e, só depois, aumentar aos poucos a fatia em ações, sem pressa e sem apostar tudo numa mudança de cenário que ainda está em curso.
O ciclo de juros mais baixos não elimina a necessidade de diversificação: só muda o peso de cada classe de ativo dentro da carteira, com a renda fixa perdendo espaço para a bolsa doméstica à medida que a Selic recua.

